1 Com presentes / caseiros e / palavras toscas / o coração humano nada aprende — «Nada» / é a força que renova / o Mundo —
2 Dois exemplos, entre vários outros: José Cardoso Pires escreveu «As casas, paredes, degraus, objectos, ângulos de sombra, todo esse mundo nos aparece com o ostinato rigore dum levantamento ou duma "memória descritiva”. Nitidez de geómetra, é o que lembra», texto para o catálogo da exposição individual Manuel Amado na Galeria de São Mamede, Lisboa, 1983; Carlos Monjardino referiu-se a «espaços demarcados com muita clareza [parecendo] querer afastar todas as impurezas» («A pintura de Manuel Amado» in catálogo O Conventinho da Arrábida, Fundação Oriente, Casa Garden, Macau, 1998).
3 A expressão é de José-Augusto França, no texto «Uma pintura de evidência» in catálogo da exposição de pintura de Manuel Amado na Galeria Antiks Design, Lisboa, 1998.
4 Conversa com o pintor gravada a 3 de Abril de 2018: «Fui marcado pelo De Chirico, mas eu não tenho muito a ver com ele. Era uma referência de princípio. Tive uma decepção com Morandi — afinal não tenho ligação. Não me interessa. Eu fiz naturezas-mortas, mas não tem nada a ver.» E ainda: «Eu não pertenço àquelas coisas que têm estado sempre na moda nos últimos tempos. Tenho o meu caminho. Muito ligado, claro, à pintura antiga, ao surrealismo, Magritte. Não que eu esteja muito próximo deles, mas venho daí. As pessoas são feitas daquilo que vão vendo em miúdos» in Marta Ferreira dos Reis, «Entrevista a Manuel Amado: "As pessoas são feitas daquilo que vão vendo”», Público — Ípsilon, 15 de Novembro de 2007.
5 Maria João Seixas, «Conversa com vista para… Manuel Amado», revista Pública, 28 de Janeiro de 2007.
6 Maria João Seixas, «Conversa com vista para… Manuel Amado», revista Pública, 28 de Janeiro de 2007.
7 Luísa Soares Oliveira, «A casa dos espelhos» in catálogo Manuel Amado. pinturaPinTUrA, Fundação D. Luís I, Centro Cultural de Cascais, Cascais, 2007.
8 «As pinturas são todas muito formais. São composições muito lisas» disse Paula Rego, citada por Catarina Alfaro, texto para o catálogo O Verão era assim como uma casa de morar onde as coisas todas estão… (selecção de pinturas de Manuel Amado por Paula Rego), Casa das Histórias Paula Rego, 2016. «Trata-se, em boa e merecida verdade, de uma pintura inocente», José-Augusto França, «Uma pintura de evidência» in catálogo da exposição de pintura de Manuel Amado na Galeria Antiks Design, Lisboa, 1998. Neste texto França também se refere a esta como uma pintura «lisa e impessoal». Hellmut Wohl falou também de inocência (catálogo Galeria Nasoni, 1992), bem como José Cardoso Pires, «Lisboa Revisitada» in catálogo Manuel Amado, Lisboa. Pintura 1975-1997, Palácio Galveias, Lisboa, 1998.
9 Conversa com o pintor gravada a 3 de Abril de 2018.
10 «Estes quadros possuem todos uma simplicidade ameaçadora […]. É como se ele pintasse para erradicar um fantasma, algo que nunca conseguirá fazer», Paula Rego citada por Catarina Alfaro, texto para o catálogo O Verão era assim como uma casa de morar onde as coisas todas estão… (selecção de pinturas de Manuel Amado por Paula Rego), Casa das Histórias Paula Rego, 2016, pp. 5-6.
11 Vitor Silva Tavares, texto para catálogo de exposição de pintura de Manuel Amado na Galeria da Alliance Française, Lisboa, 1984.
12 Marta Ferreira dos Reis, «Entrevista a Manuel Amado: "As pessoas são feitas daquilo que vão vendo”», Público — Ípsilon, 15 de Novembro de 2007.
13 Sobre ela escreveram Francisco Bethencourt, que reforça a ideia de dupla inquietude de abandono humano e o efeito de desordem provocado pela água, e Fernando António Baptista Pereira, que assinala a conjugação de serenidade e devastação nessa série. Ambos escrevem no catálogo Manuel Amado. La grande crue, Centre Culturel Calouste Gulbenkian, Paris, 2001.
14 Friederich Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos, trad. Delfim Santos, Guimarães Editora, p. 113. Embora o contexto desta citação seja remoto em relação ao assunto aqui tratado — Nietzsche fazia deste modo a crítica da modernidade que preservava instituições obsoletas como, por exemplo, o matrimónio —, a descrição nela enunciada não parece ter caducado.
15 «As pinturas são todas muito formais. São composições muito lisas. As sombras, a composição, evocam o trabalho de Edward Hopper, mas muito mais claustrofóbico e perigoso.» Paula Rego, citada por Catarina Alfaro, texto para o catálogo O Verão era assim como uma casa de morar onde as coisas todas estão… (selecção de pinturas de Manuel Amado por Paula Rego), Casa das Histórias Paula Rego, 2016.
16 «[…] nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz», Cesare Pavese, A Praia (1941), trad. Alfredo Margarido, Portugália, s/d, p. 154. Corroborando esta leitura, refira-se que a propósito da exposição na Casa das Histórias O Verão era assim como uma casa de morar onde as coisas todas estão… em 2016, Luísa Soares Oliveira escreveu: «Cenário, portanto. Espaço em caixa, para o qual o freudiano conceito de unheimlich — a estranheza inquietante bem próxima do comentário de Paula Rego — não é de todo desadequado. Unheimlich que nasce sempre da percepção de um déjà vu […]. É que o Verão de que o título fala, apropriado de um verso de Rilke, e as casas de férias em particular, não são mais do que o lugar onde se volta sempre e sempre para tentar viver o que já se viveu em tempos.» Luísa Soares Oliveira, «Da simplicidade ameaçadora de Manuel Amado à turbulência inquietante de Paula Rego», Público, 30 de Junho de 2016.
17 Conversa com o pintor gravada a 3 de Abril de 2018.
18 Conversa com o pintor gravada a 3 de Abril de 2018.
19 Em 1983 José Cardoso Pires notara o «discretíssimo humor com que o fantástico coabita com o real mais palpável e objectivo» (texto para o catálogo da exposição individual Manuel Amado na Galeria de São Mamede, Lisboa, 1983).
20 Ruth Rosengarten, texto para catálogo Manuel Amado. recent Paintings, Anne Berthould Gallery, Londres, 1990. Republicado em português no catálogo Manuel Amado. Pintura, Fundación Antonio Pérez, Cuenca, 2004.
21 Vitor Silva Tavares, texto para catálogo de exposição de pintura de Manuel Amado na Galeria da Alliance Française, Lisboa, 1984. Outros autores que referiram o espelho foram, por exemplo, Eduardo Lourenço, «Espelho sem imagem» in catálogo da exposição de Manuel Amado Viagem à volta de uma estação abandonada, Antiks, Lisboa, 2000; Luísa Soares Oliveira, «A casa dos espelhos» in catálogo Manuel Amado. pinturaPinTUrA, Fundação D. Luís I, Centro Cultural de Cascais, Cascais, 2007; Nuno Júdice, «A Representação em Pintura» in catálogo Encenações, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa, 2011. Nuno Júdice fará ainda um livro de poemas em diálogo com a série A Grande Cheia (1996) de Manuel Amado, com o título Jogo de reflexos, publicado em edição bilingue pelas Éditions Chandeigne, Paris, 2001.
22 Maria João Seixas, «Conversa com vista para… Manuel Amado», revista Pública, 28 de Janeiro de 2007.
23 Jacques Derrida, Without Alibi, ed. e trad. Peggy Kamuf, Stanford University Press, Stanford, Califórnia, 2002.
24 Jacques Derrida, «Provocation» in idem, p. xv.
25 Tradução minha. No original: «The alibi always tells a story of lying. And thus of perjury, every lie being first of all a perjury. But a perjurer will always be able to claim that he neither lied nor perjured: he was simply elsewhere, his mind was elsewhere, and his attention disjointed. His distraction or amnesia, thus his finitude, serve him as an alibi.» Jacques Derrida, «Provocation» in idem, p. xxvi.
26 Tradução minha. No original: «[…] there is no reason to be proud of this "without alibi”: it does not prove innocence; it does not correspond to an assumed responsibility, here now, but rather to an unjustifiable fault or lack. Almost to a blatant offense, flagrante delicto. In the best of cases, to a flagrant offense of irresponsibility.» Jacques Derrida, «Provocation» in idem, p. xxxi.
27 Agradeço a Teresa Amado a consulta deste documento.
28 A série O espectáculo vai começar…, de cerca de cinquenta quadros, foi mostrada numa exposição no Palácio da Ajuda em 2007. No texto do catálogo, João Pinharanda notou a inquietação reiterada por esta série: «Há grande inquietação nas serenas imagens de Manuel Amado […]. Agora, ao acrescentar a sugestão de uma acção (que vimos ser duplamente falsa: porque a acção teatral o é sempre e porque aqui não pode haver sequer simulação de acção), estes indícios acentuam-se.» João Lima Pinharanda, «Teatro do impossível» in catálogo O espectáculo vai começar…, Palácio Nacional da Ajuda, Galeria D. Luiz, Lisboa, 2007.
29 Sobre essa série, então ainda no início, disse: «entretanto estou a desenvolver uma exposição que será daqui a 3 ou 4 anos. É outra vez um tema um bocado obsessivo, não é teatro é uma coisa um bocadinho ligada ao surrealismo, mas nada a ver com o surrealismo porque não sou um surrealista, mas tenho, até por geração, grandes ligações, não só afectivas, ligações culturais ao mundo do surrealismo que, enfim, quando era miúdo estava em pleno. Agora vou, através da minha pintura, revisitar o surrealismo.» Marta Ferreira dos Reis, «Entrevista a Manuel Amado: "As pessoas são feitas daquilo que vão vendo”», Público — Ípsilon, 15 de Novembro de 2007. Em jogo estava não o surrealismo mas a memória do surrealismo, reconfigurado através do filtro da rememoração, e de uma perspectiva à distância, de quem não está implicado, de quem não tem qualquer ideia de apresentar uma proposta surrealista, mas de visitar em tela mais um lugar (neste caso, pictórico) de afecto. A exposição teve lugar em 2011: Encenações, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa (catálogo com texto de Nuno Júdice, «A Representação em Pintura»), 2011.
30 Hellmut Wohl escreveu que para Alberti a perspectiva servia a istoria, ao passo que em Manuel Amado não há istoria, na sua pintura a luz e a sombra são fins em si mesmos e o realismo e a perspectiva — a janela albertiana — servem apenas para as evidenciar. Hellmut Wohl, texto para catálogo Manuel Amado. Pintura 1971-1994, Museu da Fundação Arte y Tecnologia da Telefónica de Madrid, Madrid, 1995, p. 13.
31 «Uma das coisas que me deu muito prazer fazer — fiz poucos, mas ainda fiz alguns — foi cenários para teatro, achava que era uma coisa maravilhosa, adorava. Comecei muito cedo para peças que fiz com um grupo de estudantes, onde também estava o [José] Sasportes. Fiz muito teatro, dos 10 aos 19 anos, como actor. Com o Couto Viana, primeiro, director do teatro da Mocidade Portuguesa. No teatro do Colégio Moderno fiz com o Manuel Lereno, que era um actor, mas muito bom encenador também. E depois fiz com o meu pai, mas já pouco, já um bocadinho desinteressado.» Conversa com o pintor gravada a 3 de Abril de 2018.
32 Conversa com o pintor gravada a 3 de Abril de 2018.
33 Idem.